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O ensino e a aprendizagem de Filosofia na Educação Infantil: algumas reflexões
Coluna do Professor
Seg, 01 de Abril de 2013 00:00

O professor deve levar as crianças a pensar em coisas importantes da vida social e escolar de forma divertida, prazerosa e significativa

Marcos Pereira dos Santos (*)

prof-marcos-pereira webEste artigo tem como principal objetivo apresentar algumas reflexões sobre o ensino e a aprendizagem de Filosofia na escola de Educação Infantil. Para tanto, faz-se necessário compreender, inicialmente, que a palavra “Filosofia” é formada por dois vocábulos gregos: philos = amizade; amor e sophia = sabedoria. Portanto, Filosofia significa simplesmente “amor pelo saber, amizade à sabedoria, busca do saber” (CHAUÍ, 2005, p.22).

Podemos entender esse significado ao percebermos que o amor é um empenho e que a sabedoria é discernimento sobre a vida. Portanto, a Filosofia nada mais é do que um empenho, um esforço, uma busca entusiasmada por investigar e encontrar as verdades (efêmeras) mais fundamentais sobre o mundo e a vida humana.

Na Grécia Antiga, alguns séculos antes de Cristo, pessoas como nós, seres humanos dotados de potencialidades e limitações, buscaram até as últimas consequências colocar em prática essa atitude de procura e empenho incansável pelas verdades, pela sabedoria. Filósofos clássicos como Sócrates (470-401 a. C.), Platão (430-347 a. C.), Aristóteles (384-322 a. C.) e muitos outros estudiosos da Filosofia nos deixaram grandes ideias e enfrentaram, cada qual em seu tempo histórico, muitos dos mesmos problemas que nos afligem atualmente, sempre demonstrando uma atitude investigativa sobre as questões sociais por “amor à sabedoria”.

Ao deixarmo-nos guiar pelas concepções dos grandes filósofos, estaremos melhor capacitados para dar início a uma vida melhor, tanto dentro quanto fora do ambiente escolar. Sócrates falava que, ao “espantar-se” com as coisas e as ideias, estava-se dando início ao processo de “filosofar”. Aristóteles também observou, certa vez, que o filosofar começa pelo “admirar-se”. Ambos tinham razão, pois ao permitirmo-nos realmente a admiração e o espanto por nossas vidas, revendo tudo que aceitamos sem pensar criticamente e as grandes questões que costumamos ignorar no dia a dia, estamos definitivamente começando a agir como verdadeiros “filósofos”. E isso nós podemos fazer, simplesmente porque somos capazes de pensar, refletir, analisar e interpretar.

Mas, como agir para sermos bons “filósofos”? Como pensar de forma crítica e reflexiva? Como encontrar as verdades? Em geral, as indagações filosóficas dessa natureza costumam abordar temas complexos e desafiadores. No entanto, não é preciso que o professor seja um “especialista” em Filosofia para abordar questões de cunho filosófico na escola de Educação Infantil, “primeira etapa da educação básica escolar que tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade”. (BRASIL, 1996)

Para ensinar Filosofia na Educação Infantil, o professor deve ser criativo, recriar e desenvolver a imaginação, a crítica e a reflexão; levando as crianças a pensar em coisas importantes da vida social e escolar de forma divertida, prazerosa e significativa. Sendo assim, pode o docente se utilizar de conversas informais; brincadeiras; jogos lúdicos; canções musicais; vídeos educativos; atividades com desenhos e pinturas, entre outros recursos didáticos para explorar, ao máximo, temas filosóficos apropriados à faixa etária das crianças (zero a seis anos de idade), tais como: família, amizade, respeito, solidariedade, sentimentos, preconceito, ecologia, costumes e hábitos, higiene, alimentação, moradia, violência, mentira, convivência humana, identidade pessoal, sexualidade, esportes, entre outros. Nessas condições, os alunos estarão aprendendo Filosofia de modo prático e bastante interessante. Em outras palavras: eles estarão “filosofando”.

Conseguiremos pensar bem para viver e conviver melhor na medida em que fizermos boas relações. Quando fazemos uma analogia entre o que sabemos e algo que queremos saber, estamos iniciando um processo de aprendizagem, de conhecimento. Um exemplo disso é quando comparamos o que aprendemos em Ciências, Matemática, Filosofia e outras disciplinas com alguma experiência que vivemos. Isso significa dizer, segundo Lipman (1994), que as aulas de Filosofia na Educação Infantil devem constituir um verdadeiro espaço filosófico criativo onde as crianças sejam capazes de pensar, debater, argumentar, investigar e construir novas ideias junto com seus colegas de classe e o professor. Para que isso seja possível, as aulas de Filosofia devem proporcionar:

[...] conhecimento e compreensão; comunicação e diálogo aberto; tematizações de vivências cotidianas; reflexões sobre o mundo e a realidade que nos rodeia; contemplação do mundo real concreto; maior interação entre professor-alunos e aluno-aluno; crescimento pessoal e aprendizagens investigativas que contribuam para o pensar-agir reflexivo, a fim de que possamos viver e conviver melhor com as pessoas. (THOMAL, 2001, p.62)

Nesse sentido, uma aula de Filosofia deve, em primeiro lugar, ser acessível a todos os alunos, ou seja, não deve partir da Filosofia propriamente dita para a vida, mas da vida para a Filosofia; de modo que os alunos consigam estabelecer relações entre o que dizemos e fazemos. Mais do que um ensinamento, a Filosofia torna-se uma orientação para a vida em sociedade.

Especificamente em relação ao ensino e à aprendizagem de Filosofia na escola de Educação Infantil, entendemos que o conhecimento filosófico deve ajudar as crianças a perceber o mundo de forma diferente, suscitando curiosidades e questionamentos acerca das coisas que as cercam. Uma aula de Filosofia precisa emergir nas crianças a vontade de procurar respostas para suas dúvidas, numa atitude de reflexão e pesquisa investigativa. Isso implica afirmar, de acordo com Ribeiro (2008), que as aulas de Filosofia para crianças devem gerar espaços de criatividade, convivência, interesse, compreensão, entusiasmo, pensamento lógico, perguntas, soluções, dúvidas e ações concretas para o viver bem consigo mesmo e com os outros.

Com efeito, importa ensinar e aprender não tanto as matérias e os conteúdos do programa escolar, mas a forma, o método e o processo de “filosofar” das crianças. Faz-se necessário, sobretudo, ensinar e aprender não conhecimentos, mas a conhecer; não objetos de aprendizagem, mas a aprender; não reflexões, mas a refletir; não pensamentos, mas a pensar; não resoluções, mas a resolver; não investigações, mas a investigar; enfim, importa ensinar e aprender a ser humano.

Todavia, o desenvolvimento de habilidades e competências nas crianças implica que se ensine com a intenção de levar a aprender, isto é, a conhecer, agir e compreender. Mas, aprender significa também passar pela experiência do “desaprender” alguma coisa, deixar um hábito ou uma certeza no mais íntimo de nós próprios; a fim de que possamos fazer uma leitura crítica da realidade e assim desenvolver a capacidade de pesquisa e de procura do saber com o máximo de sabor possível. É exatamente esse sabor (agradável) que professor e alunos devem sentir em aulas de Filosofia na Educação Infantil, no intuito de que possam transformar a sala de aula numa autêntica comunidade de aprendizagem investigativa; lembrando sempre que “as ideias movem o mundo, porém as pessoas que pensam bem podem viver e conviver melhor e, portanto, transformar a si mesmas e o mundo à sua volta”. (COLOMBO, 1995, p.18)         

Referências

BRASIL. Congresso Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, de 23/12/1996.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13.ed. São Paulo: Ática, 2005.

COLOMBO, O. P. Pistas para filosofar. 4.ed. Porto Alegre: Evangraf, 1995.

LIPMAN, M. Filosofia na sala de aula. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.

RIBEIRO, D. C. Filosofia para crianças. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

THOMAL, A. O desafio de pensar sobre o pensar: investigando sobre teoria do conhecimento. Florianópolis: Sophos, 2001.

 

(*) Marcos Pereira dos Santos é mestre em Educação, linha de pesquisa “Formação de Professores”, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), escritor, poeta e professor adjunto da Faculdade Sagrada Família (FASF) e do Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais (CESCAGE), junto a cursos de graduação (bacharelado/licenciatura) e pós-graduação lato sensu, em Ponta Grossa – Paraná. Endereço eletrônico: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.     

 

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