A educação foi uma das bandeiras mais visíveis nesse mar de pleitos e protestos

Rosane M. Nóbrega Fernandes Fonzaghi (*)

Mais uma vez, são os jovens que protagonizam um momento histórico no Brasil e no mundo. Quem foi às ruas nas últimas semanas teve a oportunidade de vê-las repletas, principalmente, de alunos do ensino médio e universidades. São os nossos alunos que estão escrevendo as novas páginas da nossa História! E nós, professores, coordenadores e diretores de ensino? Qual a relação entre a escola e as ruas?

Podemos começar pela mais óbvia delas: a que se lia em cartazes e gritos de guerra, já que a educação foi uma das bandeiras mais visíveis nesse mar de pleitos e protestos. Não deixa de ser curioso que ela tenha sido levada às ruas por aqueles que começam a entrar no mercado de trabalho e, portanto, começam a perceber a importância da qualidade da educação para suas vidas.

O Brasil tem exibido, nas últimas décadas, números bastante promissores quanto à inserção da criança e do jovem na escola. No final do governo JK, em 1960, o Brasil tinha 39,35% de analfabetos na população com mais de 15 anos. Em 2011, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2011, esse percentual era de 8,6%. O país, portanto, superou a primeira batalha, a da ampliação do acesso ao ensino. Agora, enfrentamos a segunda, a da qualidade. Não por acaso, entre os Anos Dourados e a chamada “Primavera Brasileira”, surgiu o conceito de analfabetismo funcional, a melhor evidência de que construímos a sala, mas ainda não estamos dando a aula como deveríamos.

É nesse contexto que ocorre o florescimento do ensino privado para a classe média brasileira. E é interessante notar como ele se deu em resposta à busca por qualidade por parte de quem já tinha acesso ao ensino público. É basicamente a mesma demanda que vemos hoje, nas ruas, e que foi turbinada pelo mais amplo e rápido acesso à informação proporcionado pelas redes sociais. Nesse cenário em que (quase) tudo está ao alcance de um clique, milhares de alunos do ensino privado irmanaram-se aos das escolas públicas.

Porém, indo além do óbvio, vemos nas ruas os jovens que temos ensinado a serem cidadãos. Pois tem sido crescente, nas últimas décadas, a exigência de que a escola vá além da transmissão de informações. Por um lado, temos pedagogos que nos apontam para a necessidade de ensinar o aluno a fazer uso do conhecimento, estabelecendo relações e elos cognitivos entre seu saber e sua realidade. Por outro, os pais e a sociedade em geral pedem que a escola dissemine valores e noções de cidadania.

Também aqui ainda temos muito a avançar, especialmente neste novo ambiente em que os alunos precisam de cada vez mais protagonismo em sala de aula. Mas também aqui percebemos que já vencemos uma batalha. O crescente interesse dos alunos por temas relacionados à organização política do Brasil, nossa história recente e o cenário político – que considero uma das grandes vitórias das manifestações das ruas – é também decorrência de um ensino que buscou formar cidadãos, mais que alunos.

Se a rua foi o palco da democracia, a escola é sua coxia, onde professores, coordenadores e diretores de instituições de ensino atuam para formar cidadãos responsáveis pela sua história e pelo seu tempo.

 

(*) Rosane M. Nóbrega Fernandes Fonzaghi é professora de história do Colégio Doze de Outubro