Certo dia, o meu orientador insistiu para que eu começasse a lecionar em um curso de pós-graduação para ir me acostumando com a nova profissão. Quem tem cabeça obedece! Isso foi em 1995.

Eu nunca havia lecionado e, efetivamente, estava inseguro na minha primeira aula, pois sabia que entre os alunos estavam dois professores de graduação da instituição, que participavam do curso para obter o certificado de especialização (lato sensu).
A disciplina que estava ministrando era Controladoria. Em dado momento da aula, para mostrar que eu era novato como professor, mas sabia bastante e tinha experiência empresarial, soltei a seguinte frase fatídica: “Bem, pessoal, já vimos que uma pessoa física ou natural existe de fato, mas uma pessoa jurídica não existe!”.
Causei um alvoroço. Muitos alunos pediram para eu explicar o significado das minhas palavras, pois não era possível que um Banco do Brasil, Petrobras ou a cantina da escola, simplesmente, não existiam. Todos sabiam que essas empresas existiam sim, e “a cores”.
Pronto! Percebi a gafe que havia cometido. Essa afirmação saíra naturalmente da minha boca, pois era fruto dos conhecimentos adquiridos ao longo da vida e da vivência empresarial. Só que, no momento, eu não tinha respostas convincentes a dar, pois não estava preparado para tal situação.
Havia ouvido conselhos de professores experientes que um professorprecisava ter “jogo de cintura”. Ah, bom! Jogo de cintura eu tinha, pois eu já era na época um bom negociador no mercado financeiro. Então, coloquei em prática os conselhos dos meus amigos e minhas habilidades de bom negociador. Disse para a classe que as minhas palavras eram para reflexão e que deveriam pesquisar e trazer na próxima semana argumento a favor ou contra (sinceramente, não sabia no que ia dar).
Naquela noite, ao chegar em casa, muito preocupado com as explicações que teria que dar na próxima aula, preparei-me para varar a noite pesquisando em livros de direito e contabilidade argumentos a meu favor. Um pensamento me martelava: "que justificativa darei na próxima aula"? Uma das saídas seria dizer que havia falado em sentido figurado e tentar consertar as palavras mal-colocadas. Pensamentos de professor iniciante.
Em alguns minutos havia coletado várias definições que corroboravam a minha afirmação. Eureca! Achei a solução. Daria explicações sucintas, sem entrar muito em detalhes, pois eu não possuía na época conhecimentos que me permitissem aprofundar nesse tema. Pessoa física ou natural é todo ser humano e, portanto, existe fisicamente. A pessoa jurídica existe juridicamente, ou seja, “no papel”, a partir do momento em que foi criada; portanto, não existe fisicamente. Ponto! Nada mais. Fecharia o assunto dentro desses limites.
Na aula seguinte, como os alunos também haviam pesquisado e chegado a conclusões semelhantes, fizemos um rápido debate e fechamos o assunto sem maiores problemas.
Moral da história: o jogo de cintura ajuda a resolver questões inesperadas em sala de aula, mas aulas bem preparadas proporcionam mais segurança ao professor.
Por Pierre Corbisier