Sou professora há cerca de quinze anos. Minha área de atuação é extremamente desafiadora, e eu brinco que é ela que me mantém jovem. Eu trabalho com mídias digitais e dou aula sobre o tema. Meu desafio é fazer pessoas entenderem um universo de marketing que roda em cima de tecnologias variadas, o que obriga a adquirir e lidar com um vocabulário muito diferente, longe do cotidiano de trabalho de muitos alunos.

Pois bem, como todo professor e coordenador, eu leio as críticas ao curso e a cada aula. Nem sempre fico feliz com o que leio. Sou obrigada a, humildemente, reconhecer que algo não funcionou. Esse processo de ajuste tem me obrigado a refletir onde foi que errei e como corrigir.
Meu trabalho como consultora exige conhecimento na área de Ciências Cognitivas e, juntando uma peça com a outra, descobri que o maior problema da forma como ensinamos é que somos lineares e desrespeitamos o desconhecimento dos alunos do resultado final do curso em termos de “produto”. Eu não estou falando da sensação de sair da faculdade e nada do que você aprendeu ser útil do jeito que foi ensinado.   Estou falando da dificuldade de entender as partes e formar o todo.
Cursos, sejam eles rápidos ou longos, partem do pressuposto do que devemos construir o conhecimento passo a passo, para que o aluno possa usar essas peças para construir algo. Ao visualizar essa imagem ficou claro para mim onde está o erro. É como se eu dissesse para o aluno: “Nesta caixa estão as 1000 peças de um quebra-cabeça. Eu vou entregar 1 por dia e, ao final desse processo, você deverá me entregar o quebra-cabeça montado. Trata-se da imagem de um castelo do século XII na França.” Imagine a expectativa que isso gera. Mas o principal é o problema de mapeamento. 
Se o aluno nunca viu um castelo desses e ainda por cima recebe as peças aos poucos, as chances dele entender a entrega são próximas de zero. Certamente haverá ansiedade e frustração nas duas partes da equação: aluno e professor/coordenador. O aluno não sabe o que está recebendo, mas entende vagamente que a ordem de entrega é correta. O problema é que a construção de um quebra-cabeça não é linear. É bem mais complexa que isso.
Tenho pensado seriamente em começar o curso apresentando o produto final esperado, não só o que ele deve aprender na teoria. Minha área não é de fundamentos, é de estratégia, execução e análise. Logo, preciso mostrar o que ele deve aprender a fazer, e daí mostrar como cada aula vai contribuir para que ele consiga entregar um produto de qualidade, mudando sua trajetória profissional.
Imagino que esse formato possa não servir para todos os cursos e para todas as áreas, mas, quando o aluno tem que se tornar alguém que faz acontecer, não sei se tem outro jeito.

Por Profª Amyris Fernandez (EAESP-FGV)