O que tem exaurido, desgastado e adoecido os professores são as péssimas condições de trabalho

"Não é o conhecimento que é perigoso, mas sim a ignorância."

François Jacob - Prêmio Nobel de Medicina

simone-benedettiA má formação dos alunos do ensino superior é fruto natural da má formação dos professores de educação básica? Por que muitos cursos da área de educação estão sendo fechados por falta de alunos? As abordagens pedagógicas precisam ser mudadas em função da evolução tecnológica?

Sem fazer muito esforço de raciocínio, é fácil perceber que se a educação básica for boa, os alunos que chegarem a universidades estarão bem mais preparados para assimilar novos conceitos em suas respectivas especialidades.

A professora Kátia Simone Benedetti, professora da rede municipal de ensino, especialista em psicopedagogia e mestre em Educação Musical, é autora do livro "A Dignidade Ultrajada: ser professor do ensino público nos dias atuais" (veja a sinopse do livro neste link). A professora fala sobre os diversos aspectos da Educação nesta entrevista exclusiva ao Portal Professornews.

Professornews  A geração atual de professores, com certeza, lembra de seus professores da época da adolescência, com muito carinho e respeito, principalmente das "professoras". Em sua opinião, quando os adolescentes de hoje forem adultos lembrarão de seus professores com carinho e respeito, se hoje já não se vê muito respeito com os professores?

Kátia Simone Benedetti  É provável que muitos dos alunos continuem se lembrando de seus professores, alguns com o mesmo carinho e saudade (e seus professores, deles). Contudo, acredito que esse número tende a ser menor atualmente, uma vez que, em grande parte das escolas brasileiras, os professores não têm mais conseguido exercer sua profissão com dignidade e dedicação, o que contribui para o distanciamento entre professores e alunos.

A realidade educacional brasileira, composta por fatores como: desvalorização docente junto à sociedade; desmantelamento da escola pública; paradigmas teórico-educacionais que desautorizam o professor a ensinar e retiram do aluno a responsabilidade por seu aprendizado; má educação e falta de perspectivas de formação pessoal e intelectual das novas gerações (incluindo o menor interesse dos jovens por aprender e se apropriar dos conhecimentos oferecidos pela educação formal), tem contribuído para que os vínculos entre professores e alunos se diluam cada vez mais. As atuais condições de trabalho docente têm feito com que até os professores mais devotados sintam-se desmotivados e até acuados diante dos novos desafios interpessoais que as salas de aula oferecem.

Então, por um lado encontramos cada vez menos alunos dedicados, que compreendem o trabalho dos professores, que valorizam e respeitam esse trabalho. Esses alunos indiferentes à escola (acho que, atualmente, a maioria...) certamente não se darão ao trabalho de guardar na memória seus professores, principalmente porque, para eles, a escola é apenas um ambiente de interação social entre seus pares e não um ambiente de estudo e aprendizado com seus professores. Por outro lado, cada vez menos encontramos nas bases da educação nacional professores bem formados e motivados, capazes ou dispostos a ensinar com dedicação e afinco, a ponto de se tornarem inesquecíveis para seus alunos.

No livro "A Dignidade Ultrajada: ser professor de ensino público nos dias atuais", de sua autoria, a senhora diz que as abordagens teórico-educacionais utilizadas na educação brasileira nas últimas décadas são somente idealistas e ineficientes, contribuindo para descaracterizar a função social da escola e desvalorizar os profissionais de ensino. O que precisa ser feito para reverter essa situação?

De um lado, é necessário que o país crie um sistema eficiente de avaliação dos cursos de licenciatura. Não é possível que haja professores excelentes se os cursos de licenciatura pipocam pelo país, abertos e organizados apenas pelo critério do lucro e não da qualidade.

Por outro lado, os cursos de licenciatura deveriam incluir disciplinas relacionadas à divulgação de conhecimento científico nas áreas das Neurociências, Psicologia Evolutiva e Antropologia Darwinista. Isso traria à educação uma nova compreensão do ser humano e de sua natureza comportamental. Em relação aos estudos do cérebro, é necessário mais aprofundamento, uma vez que muitos resultados de pesquisas nessa área, divulgados pela imprensa não especializada, dão margem à criação de obras superficiais, que visam o lucro imediato ao oferecer receitas, modelos de autoajuda e novos “métodos de ensino” que, apenar de bonitos, são idealistas e inaplicáveis.

Uma vez que as licenciaturas formam docentes e estes são os profissionais que trabalham diretamente com grupos, com comportamento e aprendizado humanos, é necessário que se comprometam com estudos científicos do comportamento humano, com estudos atuais e fundamentados em pesquisas sérias e não em opiniões e achismos de um ou outro autor. Não é mais possível que os cursos de Pedagogia, por exemplo, permaneçam fundamentados em teorias desenvolvimentais dos séculos XIX e XX. Esse tipo de atualização deveria ser também obrigatório aos professores efetivos, por meio das formações continuadas. Professores precisam estar atualizados sempre, em suas áreas e nas áreas relacionadas ao comportamento humano. É com isso que lidamos diariamente.

No que se refere ao passo em direção à Ciência e ao pensamento científico nas licenciaturas, isso só será possível se os próprios teóricos e acadêmicos da área educacional forem capazes de ultrapassar suas próprias abordagens teóricas de natureza apenas social. Há uma cultura de que na Educação cabem apenas as abordagens das ciências sociais. Existe, inclusive, muita crítica em relação ao Método Científico e ao pensamento científico por parte dos teóricos educacionais. Há teorias sobre aprendizado humano que rejeitam o método científico, tachando-o de “cartesiano”, “fragmentado”, “reducionista”, “não-criativo”, “frio”, “não-contextualizador”. Para mim, isso é um grande equívoco que precisa ser superado. Trata-se de uma crítica de quem desconhece, em profundidade, a maneira científica de pensar.

A Ciência busca compreender a realidade em sua totalidade, em suas relações, em seu funcionamento. É um erro crasso achar que a redução do objeto de estudo corresponde à redução ou fragmentação de situações ou indivíduos. Não é porque a Ciência delimita seu objeto de estudo que deixa de compreendê-lo em sua inteireza. Não é porque se abordam as bases biológicas e evolutivas do comportamento humano que se olha o ser humano de maneira “fria”, indiferente ou preconceituosa. Pelo contrário! Quantos e quantos preconceitos têm sido banidos devido à luz da Ciência? Esse tipo de constatação simplista, aliás, é bem típico da incapacidade de se exercitar realmente o pensamento científico.

A educação não pode permanecer um território de profissionais pouco informados, desatualizados e limitados intelectualmente. Precisamos conhecer e fazer Ciência! Afinal, a Ciência avança sempre. Apesar de suas limitações e de seus erros, é o pensamento científico que trouxe a humanidade ao patamar de desenvolvimento tecnológico em que ela se encontra hoje.

Os professores universitários têm constatado que, cada vez mais, os alunos chegam ao nível superior de ensino com graves deficiências de matemática e português, sem falar de outras disciplinas básicas dos ensinos fundamental e médio. Isso é fruto da educação básica deficiente ou pode ser culpa da geração internet?

Não acho que a internet influi de maneira tão negativa assim na formação das novas gerações. Pelo contrário. Ela tornou o conhecimento muito mais acessível e atualizado. Ela é uma ferramenta maravilhosa, cujo uso eficiente precisa ser aprendido e explorado pelos alunos e professores.

Para mim, a deficiência de conhecimentos básicos dos atuais alunos é resultado da situação em que o ensino público fundamental foi lançado. Trata-se de uma situação complexa e que envolve vários fatores que agem simultaneamente, se autoalimentando.

Em primeiro lugar, cito as teorias educacionais (sobre comportamento e aprendizado) dos séculos passados, que são idealistas e não fundamentadas cientificamente. Essas teorias deram margem à implantação no sistema público de ensino, há pelo menos três décadas, de metodologias “contextualizadoras”, que não permitem mais à escola transmitir conhecimentos, nem ser um local de aprendizado e desenvolvimento intelectual. A escola pública não ensina, ela acolhe e insere. Ela não pode ser “conteudista”, nem “transmitir conhecimentos prontos”. Os professores, por sua vez, foram orientados a evitar as aulas expositivas, a não cobrar empenho do aluno, a não exigir tarefas “mecânicas” de fixação etc. Acredita-se que exigir do aluno concentração e foco nas tarefas é nocivo e antipedagógico. Silêncio, foco, atenção tornaram-se sinônimo da escola opressora, castradora.

Na alfabetização, o reconhecimento das palavras passou a ser feito a partir do “contexto do texto”. A formação das palavras e sua ortografia ficaram à mercê desse contexto. Resultado: alunos que não sabem nem o significado e muito menos a ortografia das palavras. Aqui vemos o raciocínio simplista dos teóricos educacionais: tomar as letras, juntá-las para formar as sílabas e juntar essas últimas para formar as palavras é algo “fragmentador” que retira do aluno a capacidade de compreender a palavra em seu contexto! Se o aluno aprende espontaneamente a linguagem oral, deve aprender dessa forma também a linguagem escrita... O aprendizado deve acontecer de forma contextualizada e criativa. Atividades do ensino tradicional que exigem atenção focada e maior concentração do aluno foram consideradas inadequadas, por serem “mecânicas” e sem sentido... Ensinar gramática e análise sintática? Não. Devemos priorizar a compreensão dos diversos gêneros textuais. Tudo no contexto... Nada de foco, de fragmentação.

Implantou-se também no ensino público a ideia de que as aulas expositivas não são as melhores porque o ser humano é “mais visual que auditivo”. Esse pressuposto excluiu, por tabela, milhões de anos de evolução que nos fizeram o único primata a ter uma linguagem oral altamente desenvolvida. Nossos cérebros simplesmente nascem prontos para falar e ouvir outro ser humano falando! E para aprender dessa forma! Boas aulas expositivas ainda são uma das melhores estratégias de ensino. Por outro lado, apesar dessa exigência de diminuição das aulas expositivas (professor, seja criativo com seus métodos, evite aulas expositivas diante do quadro negro), a maioria das escolas públicas jamais deu algum tipo de condição aos professores para que dessem aulas diversificadas. Com quais materiais? Em qual espaço físico? Com que instrumentos ou recursos?!

Há ainda os pressupostos de que a baixa autoestima da reprovação era um dos maiores causadores do desinteresse escolar, do excesso de faltas e da evasão. Assim, implantaram-se as políticas de aprovação automática, do Bolsa-família e de cobrança de resultados apenas da escola e dos docentes (exames municipais e nacionais). Alunos e pais foram (e são) poupados ao máximo dessa cobrança. Isso retirou a responsabilidade pessoal dos alunos (e de suas famílias) por seu próprio aprendizado. Eles sabem que não precisam se esforçar. Sabem que não há consequências.

Dessa forma, uma trajetória de permissividade e de falta de responsabilidade pelo próprio processo de formação educacional resultou em gerações mal formadas, despreparadas e que não se sentem responsáveis por si mesmas. Esperam sempre que alguém resolva seus dilemas e desafios intelectuais, como os que a universidade ou o mercado de trabalho lhes impõem, por exemplo. São frutos do ensino “contextualizado”, frutos que não sabem nem contextualizar conhecimentos, nem buscá-los, nem identificá-los e muito menos produzi-los ou focar neles sua atenção.

Por fim, a municipalização do ensino tornou a educação uma parte das ações politiqueiras voltadas para a eleição ou reeleição de prefeitos e secretários municipais. Por sua vez, as escolas tornaram-se locais de perseguição aos que não seguem a cartilha da política local. O aprendizado é o último que conta. O que importa são os cargos de confiança e os números, os “resultados”, ainda que camuflados. Os cursos de formação continuada de professores, congressos e simpósios municipais de educação acontecem mais pautados na visibilidade que oferecem às administrações municipais, nas conveniências e vantagens que trazem aos envolvidos (universidades e gestores públicos), em vez de focar em sua real qualidade. Consequência: geralmente são rejeitados pelos professores, pois seus conteúdos não se aplicam à realidade cotidiana das escolas. Limitam-se a ser o desfilamento de teorias, discursos e resultados de pesquisas acadêmicas que, no fundo, desconhecem a realidade cotidiana das salas de aula do ensino básico.

Portanto, é quase incompreensível que os acadêmicos da Educação permaneçam afirmando que a escola é uma instituição social ultrapassada, que funciona nos moldes do século XIX, que precisa ser “reinventada” para se adequar ao mundo moderno. Afirmar isso é fácil. Difícil é mostrar como concretizar essa “reinvenção”. Não é possível que esses profissionais que “pensam” a educação continuem a afirmar que é de responsabilidade dos professores e de outros agentes escolares – por sua própria conta, esforço e risco – “reinventar” a escola pública! Professores e outros profissionais de dentro da escola são os agentes mais frágeis, subalternos e menos autônomos da grande estrutura que é o sistema público de ensino. Como esperar que eles consigam “transformar” a escola pública? Eles realmente têm condições de fazer essa revolução? Ou essa tal de “reinvenção da escola” precisaria ser um esforço conjunto de vários segmentos da sociedade, incluindo os próprios acadêmicos, legisladores e políticos?

Por falar em internet, a forma de memorizar mudou bastante nos últimos anos (ver a matéria Memória na era Google), tanto para os professores como para os alunos, como consequência da evolução tecnológica. Esse fator influenciou a "falta de base" dos alunos ou seria uma fase natural da evolução humana?

Como professora que está diariamente em sala de aula, vejo que a internet tem menos relação com o mau desempenho dos alunos do que gostamos de crer. Para mim, o mau desempenho é uma questão mais cultural que intelectual. Relaciona-se às fragilidades e deficiência do ensino público e ao comportamento descompromissado dos alunos e pais em relação ao aprendizado e à aquisição de conhecimento.

Falta aos alunos brasileiros a consciência de que estudar e aprender são coisas realmente importantes para a vida futura. Falta muito a vontade de ler e de se apropriar de novos conhecimentos. Falta a cultura nacional da valorização do conhecimento. Falta o hábito de se concentrar nas tarefas escolares, de manter o foco nelas, de parar para pensar a respeito e tentar fazer da melhor forma. Falta o hábito diário ou semanal de estudar em casa. Conseguir que façam as tarefas e lições de casa é um desafio tremendo. Os alunos brasileiros têm ido à escola apenas para brincar, zoar e se divertir com seus colegas. Eles não sabem mais se concentrar. Não têm aprendido essa habilidade. Não a possuem em seu repertório de comportamentos. Pra ser sincera, acho que eles estão perdendo até o “hábito” de assistir às aulas... Para a maioria (não para todos, é claro), só a interação social e o consumo interessa, dentro ou fora da escola. O resto é resto. Esse é o grande problema.

A internet, portanto, tem mais relação com a falta de tempo e disponibilidade dos alunos para os estudos escolares (quando eles só querem ficar online no Face, por exemplo), ao invés de com sua maneira de aprender e memorizar conteúdos. Aliás, contarmos hoje com a internet é um fator que deveria melhorar nosso desempenho escolar e não o contrário. Isso se as novas gerações mantivessem o hábito de estudar e ler. Se, por um lado, a maneira como memorizamos as informações tem mudado com as novas tecnologias (passando dos conteúdos para as fontes), por outro, quando nos debruçamos sobre um assunto, a fim de compreendê-lo, de apreendê-lo, nossa memória funciona da mesma maneira. As ferramentas da internet só acrescentam mais dados ao nosso trabalho intelectual. Nesse sentido, certos conteúdos e práticas escolares (leitura e estudo concentrado, realização de tarefas de fixação de conteúdos, por exemplo) sempre serão básicos, fundamentais, no sentido de serem imprescindíveis para nos desenvolvermos intelectualmente. Apesar das tecnologias, nosso cérebro é o mesmo de há milhares de anos atrás e aprende praticamente da mesma maneira.

A baixa remuneração da carreira docente em todos os níveis (veja comentários na matéria Unimontes: 226 vagas de professor) contribui para a má formação dos professores. Mas não podemos ficar chorando as mágoas; precisamos agir. Na situação atual do Brasil, o que a senhora pode sugerir para motivar os futuros professores?

Acredito que um dos menores problemas da categoria docente no Brasil seja o salário. Não que ele não seja um fator muito importante ou que o professor deva trabalhar apenas “por amor”. Não. Contudo, o que tem exaurido, desgastado e adoecido os professores são as péssimas condições de trabalho. Falta de infraestrutura e desvalorização. Ouvem-se bem menos casos de professores que desistem da profissão porque são mal remunerados. Mas ouvimos diariamente notícias de abandono da docência devido ao desgaste emocional, físico, devido à agressão, ao desrespeito, à humilhação, ao aviltamento da dignidade humana. Isso tem sido o grande desafio da docência. Muito mais que o salário.

Por outro lado, se os discursos políticos-educacionais pregam que professores devem ser profissionais excelentes, motivados, dedicados e amorosos. É necessário, então, que, além de um salário condizente com essas exigências, as escolas e políticas públicas ofereçam a infraestrutura física, tecnológica, didática e legislativa necessárias para que o professor dê o melhor de si.

Então, de um lado, as teorias comportamentais e de aprendizado precisam ser revistas à luz dos novos estudos da Ciência. Por outro, o sistema público de ensino precisa rever toda sua estrutura, desde o sistema de municipalização; a remuneração dos docentes, a disponibilidade de carga horária cumprida em sala de aula e em planejamento dentro da escola junto com outros profissionais; a avaliação de alunos, docentes e gestores; formação continuada de professores, criação de projetos especiais extracurriculares (arte-educação).

O que o ensino básico precisa é de qualidade e de seriedade. Infraestrutura física, tecnológica e humana de primeiro mundo. Salários de primeiro mundo. Conhecimento e atualização profissional de primeiro mundo. Nem politicagem, nem resultados camuflados, nem permissividade em relação aos alunos, pois isso é abandonar as novas gerações (e o país todo, por tabela...) à sua própria sorte.

Por fim, parece-me que a tremenda falta de seriedade – uma questão cultural tipicamente brasileira – escancarada nas condições de funcionamento do ensino público, bem como em diversas outras esferas da vida pública do país, tem ensinado aos jovens que, neste país, não é o esforço pessoal e a dedicação aos estudos que garantem sucesso na vida. Pode ser bem ao contrário... Qual professor já não ouviu de algum aluno: “Estudar pra quê? Pra ser professor como você?! Quero não!”


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