Grupo de psicólogos especializados em questões migratórias e psicopedagogia tem know-how para transferir

projetokaeru kaeruNo Japão, não é japonês; no Brasil, não é brasileiro. Uma complicada situação que atinge milhares de adolescentes filhos de brasileiros que retornam ao País após alguns anos no Japão: sentem dificuldade de estabelecimento da identidade própria. Legalmente, os filhos de brasileiros nascidos lá são considerados brasileiros natos, mas como fica o sentimento, a afinidade, a ligação afetiva com o País, se sentem-se excluídos, apátridas?

São situações difíceis de acreditar no mundo globalizado, mas existem de fato. Atualmente, com aviões a jato, as pessoas se transferem de um país a outro num "piscar de olhos". Se for com o objetivo de turismo ou negócios, tudo bem. Porém, se for para uma família residir por muitos anos em um país estranho, com certeza, as crianças e adolescentes sofrerão algum impacto psicológico com consequências desfavoráveis para seu desenvolvimento intelectual e social.

Quando ouvimos ou assistimos notícias sobre problemas de imigração clandestina na Europa e Estados Unidos, essas questões não parecem nos atingir. Entretanto, muitos parentes ou amigos próximos podem estar passando por situações desagradáveis dessa natureza.

No auge do movimento migratório, na década de 1990 e até 2008, antes da crise mundial, existiam cerca de 350 mil brasileiros descendentes de japoneses residindo e trabalhando no Japão. Era o terceiro maior contingente de estrangeiros residentes no Japão em condições legais (hoje é o quarto, depois dos filipinos). Eles são chamados de decasséguis, palavra que significa trabalhadores migrantes (vindos de outras regiões).

 

O Projeto Kaeru e as condições dos estudantes de ensinos fundamental e médio

O projeto de reintegração de crianças em escolas brasileiras denominado "Projeto Kaeru" (kaeru significa voltar e, também, sapo, entre outros significados em japonês) é coordenado pela psicóloga Kyoko Nakagawa, psicóloga pela USP e doutora pela PUC-SP. O projeto conta com o patrocínio da Fundação Mitsui Bussan do Brasil e visa reintegrar estudantes de ensinos fundamental e médio filhos de brasileiros que retornam ao Brasil. Esses jovens nasceram, cresceram e estudaram no Japão.

projetokaeru3No país de seus antepassados, as crianças não são tratadas como iguais nas escolas, pois não são japoneses; não recebem a cidadania japonesa, mesmo nascendo lá (a legislação é diferente em cada país). Essas crianças são alvos fáceis de bullying e muitas relatam ter passado por essa experiência nas escolas, tanto lá, como aqui. Bullying é um termo em inglês que significa agressões verbais ou físicas.  

Na maioria das vezes, as crianças sofrem bullying (ou ijime, como é chamado no Japão) e não contam com a ajuda ou proteção de qualquer adulto. Como são intimidadas pelos agressores, essas crianças não delatam as situações terríveis pelas quais vêm passando. Seus pais, por negligência, para evitar constrangimentos maiores ou por puro desconhecimento, não “escutam” os pedidos de ajuda que os seus filhos emitem, muitas vezes de formas indiretas.

Outros, como no caso de professores e diretores de estabelecimentos educacionais, mesmo com queixas explícitas, preferem omitir-se para não ter aborrecimentos. Assim, as crianças, rodeadas de adultos que supostamente deveriam protegê-las, acabam sofrendo sozinhas e os agressores, que deveriam ser “educados”, crescem também sendo negligenciados. No Japão, um país de índices altos de suicídio, uma das grandes causas do suicídio juvenil, é o ijime.

 

Condições das crianças e adolescentes retornados

A maioria das crianças e adolescentes que retornam ao Brasil estudou nas escolas públicas japonesas. Com pouco ou nenhum conhecimento do português, especialmente os alunos de ensino médio, quando retornam, deparam com essa dificuldade: o idioma. Quando começam a aprender, falam o português com sotaque e acabam virando motivo de chacota na classe se sentindo inseguro e envergonhado. Eles vieram para o Brasil, na maioria das vezes, contra a sua vontade, revoltados por ter sito retirados de seu habitat, que, mesmo não sendo agradável, era conhecido. Tudo isso acaba culminando no abandono da escola.

projetokaeru2Desde 2012, numa tentativa de resgatar os jovens retornados, que aos poucos abandonavam as escolas, o Projeto Kaeru fez a proposta de realizar workshops abertos ao público, no intuito de criar um espaço de convivência onde os jovens com experiências semelhantes pudessem se encontrar, onde outros adolescentes integrados à comunidade local pudessem servir de “ponte” para os demais. "Escolhemos atividades que necessitassem de planejamentos prévios para serem realizadas, refletindo com eles a necessidade de planejar, inclusive o próprio futuro, para obter os resultados esperados. No ano de 2013, escolhemos também atividades que, com o aprendizado, pudessem também vir a ser gerador de renda" informou a Professora Kyoko Nakagawa.

"Outro aspecto que consideramos importante na inserção social é o acesso às atividades culturais. A maioria das nossas crianças nunca teve acesso a uma peça de teatro, visita a museus e outros locais interessantes, a leituras e contos; enfim, a  estimulações diversas adequadas desde a primeira infância. Assim, com a ajuda de voluntários e outros colaboradores que nos fornecem materiais, ingressos, livros, muitos em língua japonesa, estamos conseguindo a partir desse ano, oferecer também esse tipo acesso a crianças e familiares", complementou a professora.

 

Entrevista com a psicóloga Kyoko Nakagawa

A Professora Doutora Kyoko Nakagawa, líder do grupo que executa as atividades do Projeto Kaeru, fala sobre suas vivências e o que espera das autoridades educacionais.

Professornews  Quando e com que objetivos surgiu o projeto de reintegração de crianças e adolescentes brasileiros nascidos ou crescidos no exterior, notadamente no Japão, nas escolas brasileiras?

Kyoko Nakagawa  Esse projeto teve início no calor das comemorações do centenário da imigração japonesa ao Brasil, em junho de 2008, quando os governos estadual e municipal também estavam com sua atenção voltada para a comunidade nikkei. O Projeto Kaeru teve a felicidade de ser agraciado pela Fundação Mitsui Bussan no Brasil no inicio do mesmo ano, como o primeiro projeto patrocinado por ela, em função do alto nível de interesse das autoridades, tanto que o projeto começou com uma parceria com a Secretaria Estadual da Educação (SEE).

O que não imaginávamos na época era que o ano de 2008 começou com comemoração, mas terminou com uma crise econômica mundial que afetou diretamente os trabalhadores brasileiros no Japão, onde a crise provocou forte impacto. Experiências anteriores com crianças no processo migratório já tinham apontado as necessidades apresentadas por elas e, com o retorno forçado e antecipado de milhares de brasileiros devido à crise, a situação apresentou-se com uma gravidade maior.  

Como vocês perceberam inicialmente a necessidade de acompanhamento psicológico desses jovens retornados?

Como disse, experiências anteriores já apontavam para as necessidades de que toda criança, ou mesmo o adulto, precisa lidar com perda, insegurança, medo, separação e muitos outros sentimentos quando migram. Esse movimento de trabalhadores brasileiros para o Japão teve início em meados de 85 e já vínhamos acompanhando vários casos de descompensações psíquicas, desamparo das pessoas nesse processo e as dificuldades no desenvolvimento das crianças. 

Como é formada sua equipe de acompanhamento psicológico?

projetokaeru4Inicialmente, contávamos com os membros voluntários do Instituto de Solidariedade Educacional e Cultural (ISEC), uma organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP), que, desde 2005, vem acompanhando e atuando no apoio a questões educacionais dessas crianças. Hoje, contamos também com profissionais recém-chegados ao grupo, mas ainda recebemos muita ajuda de voluntários e ex-membros do ISEC (foto). Temos enfrentado bastante dificuldade para selecionar profissionais qualificados, já que o conhecimento do idioma japonês é importante pelo perfil das crianças que atendemos e são raros os profissionais nessa área com conhecimentos técnicos adequados, que conheçam a cultura onde essas crianças cresceram e que falem o japonês.  

Como tem sido a participação das autoridades educacionais do Brasil? Os jovens sofrem bullying nas escolas?

A Secretaria Estadual da Educação manteve o interesse apenas no início, como disse, no calor das comemorações. Na cidade de São Paulo, a maioria das escolas de ensino fundamental está municipalizada. Embora tenhamos hoje um termo de cooperação assinado com a Secretaria Municipal de Educação, pois o nosso maior foco é com o ensino fundamental, a participação do governo é bastante pequena.

O Projeto Kaeru faz acompanhamentos nas escolas e observamos que várias crianças por nós atendidas e outras que vemos pelo caminho sofrem bulllying. Infelizmente, estamos constatando um certo descaso para essa questão que é bastante complexa e que merece um posicionamento firme, tanto de profissionais que lidam com ensino fundamental, bem como a participação dos pais, professores, corpo diretor. Enfim, há necessidade de envolvimento de educadores em geral e toda a sociedade para chegarmos a uma solução. .

Qual é a área de abrangência geográfica do projeto? Os problemas de adaptação das crianças e adolescentes nas escolas brasileiras acontecem no Brasil todo, de Belém do Pará a Porto Alegre. Vocês conseguem atender aos anseios das famílias com problemas de adaptação?

projetokaeru1Como iniciamos as atividades em parceria com a SEE, tentamos nos deslocar para cidades de grande concentração das crianças retornadas; porém, percebemos que não tínhamos condições de atender a tantas localidades e, hoje, atendemos principalmente as escolas na cidade de São Paulo e, quando possível, Guarulhos e região do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema). Mas procuramos abranger as diversas regiões da cidade. Nas escolas onde só existe apenas uma criança retornada, por exemplo, procuramos acompanhar por telefone, e-mail e solicitar que tragam a criança até a nossa sede, no bairro da Liberdade, onde também realizamos aulas de alfabetização e reforço em português. Como todo o atendimento psicológico e psicopedagógico é oferecido gratuitamente, não temos condição de alugar locais de atendimento. Assim, os nossos profissionais se deslocam para as escolas onde estão as crianças.

Nos demais Estados e mesmo nas cidades do interior, atendemos, na medida do possível, à distância, mas isso tem se limitado a questões pontuais. Atendimento psicológico e psicopedagógico não tem sido possível oferecer nessas condições.

Como vocês auxiliam as crianças e adolescentes e suas famílias? A participação dos pais é necessária na adaptação das crianças e adolescentes nas escolas brasileiras?

Nem sempre podemos contar com a participação da família ou mesmo do professor responsável pelo aluno, do coordenador pedagógico etc. Mas, sem dúvida, quando todos colaboram, o progresso da criança é mais visível.

Após anos de acompanhamento psicopedagógico para adaptação de jovens retornados nas escolas brasileiras, quais os resultados efetivos vocês têm conseguido até agora?

Temos uma outra atividade importante no Projeto Kaeru. Desde 2009, vamos para o Japão todos os anos e percorremos as diversas cidades, em diversas províncias, onde existem concentrações de brasileiros, oferecendo palestras explicativas, orientações a pais e professores e atendendo algumas crianças. Mantemos também um intenso diálogo com as autoridades locais, secretarias de educação, organizações não governamentais (ONGs) e OSCIPs locais, escolas japonesas e também com alguns ministérios do Governo Japonês. Também temos um relacionamento interessante com os consulados brasileiros no Japão. Isso tudo tem colaborado para que não saiam do Japão ou cheguem no Brasil completamente despreparados. Muitas famílias telefonam ou mandam e-mails com dúvidas, antes mesmo de saírem do Japão e fazemos acompanhamentos quando chegam aqui.

Como vocês podem transferir o know-how acumulado para outras instituições que fazem ou pretendem fazer trabalhos semelhantes?

Gostaríamos muito de poder transferir a outras instituições o know-how que acumulamos sobre questões psicológicas e psicopedagógicas envolvendo migrações de trabalhadores brasileiros, pois possuímos dados e conhecimentos bastante profundos sobre o tema, que estão, de certa forma, sistematizados e prontos para serem aplicados em situações semelhantes. Por enquanto, não existe procura desses conhecimentos. Um livro contando as nossas experiências, publicado em 2010, está à disposição para download gratuito no nosso site www.projetokaeru.org.br.

Acontecem os mesmo tipos de problemas com as crianças e adolescentes que retornam, após alguns anos, de outras regiões do mundo, como Estados Unidos e Europa?

Acredito que existam várias semelhanças entre os retornados do Japão e de outras partes do mundo, mas também existem peculiaridades. Mesmo entre as crianças que retornam do Japão, existem algumas diferenças em função de fatores como: idade da criança ou do adolescente, se havia uma infraestrutura para recepção de estrangeiros no local onde residiu no Japão, se estudou em escola japonesa ou escola brasileira, o tempo de estada, o nível de conhecimento do idioma português, estrutura e dinâmica familiar etc.  


Fotos: Projeto Kaeru

Texto: Equipe Professornews